PANC e mudanças climáticas

Por Clarissa Taguchi


A alta dos preços dos alimentos por conta da guerra na Ucrânia e das mudanças climáticas sinalizou novamente o alerta vermelho sobre a produção de alimentos. Poderíamos conviver com inflação e uma insegurança alimentar constante? Existe solução para o problema da produção de alimentos X aquecimento global?


Assim, vamos falar de comida e de futuro?


Em 2021 fui convidada a gravar um TEDx sobre a biodiversidade na alimentação. Minha preocupação como ambientalista, mãe e empresária, sempre foi relacionado ao impacto da produção de alimentos sobre a sustentabilidade do planeta, tal preocupação me levou a ser agricultora e a trabalhar nos últimos 6/7 anos com a biodiversidade como fonte alternativa de qualidade nutricional e calórica.


Foram anos de estudo sobre plantas rudeais, perenes, rústicas e nativas, sendo sua maioria ignorada como forma de alimento. Meu objetivo era entender quais plantas teriam este potencial, como poderíamos produzi-las em escala e qual a aceitação destas pelos consumidores. Assim, o projeto PANCS Brasil se desenvolveu, cresceu e continua estudando sobre a mesma temática: Afinal, qual a comida do futuro?


90% das calorias consumidas no mundo vêm de apenas 15 tipos de colheita


Atualmente, nosso cardápio se restringe, basicamente, a três espécies de plantas: Trigo, arroz e milho. Sendo a soja, alimento indireto, produzida para consumo animal. E "das mais de 7.000 plantas comestíveis do mundo, apenas 417 são cultivadas amplamente e usadas para a alimentação humana". Estes foram dados levantados pela BBC na matéria: "Comida do futuro: as plantas pouco conhecidas que podem nos alimentar em 2050".


Com tamanha restrição de espécies cultivadas, é crescente a preocupação de cientistas e analistas financeiros sobre a inflação de alimentos. Pois os impactos das mudanças climáticas já estão associados a perdas e quebras de safra nos dias de hoje.


Uma maior variedade de cultivos representaria não apenas mais proteção em relação às colheitas, representaria também uma melhoria na qualidade calórica das populações.


E segundo nossos estudos, tal diversidade de cultivos propicia o redesenho das atividades agrícolas viabilizando a regeneração de solos e a resiliência climática.


E por que não consumimos mais variedades de espécies?


Esta resposta está atrelada a um conjunto de fatores que engloba toda a cadeia de produção de alimentos. É por isso que a ONU e a FAO vêm desenvolvendo nos últimos anos, o debate sobre a necessidade de uma mudança na cadeia de alimentos como um todo.


O modelo atual de produção de alimentos exclui a vasta biodiversidade por muitos motivos, começando desde a disponibilidade de sementes e mudas, ao modelo de cultivo mecanizado, passando pela logística e distribuição. A sazonalidade de muitas espécies é outro fator impeditivo, e está relacionada à produtividade X valor de mercado. Outra questão que dificulta o uso de espécies variadas é o chamado "shelf-life", o tempo em que um produto fica disponível na prateleira de um supermercado até o consumo em casa.


As PANC, estas espécies não convencionais, seriam uma alternativa?


As Plantas Alimentícias Não Convencionais representam o resgate de cultivos outrora consumidos por gerações anteriores, e da mesma forma, o reconhecimento de espécies potencialmente produtivas e com alto valor nutricional.

Para mim, a restrição de espécies sempre foi uma clara falta de percepção dos potenciais que a vasta biodiversidade nos oferece. Potenciais gastronômicos, inclusive. Lembro da primeira vez que provei um sabor nativo da Mata Atlântica, não dormi por semanas. Para quem colecionava potes de temperos do mundo todo, encontrar uma planta nativa com sabor diferente no próprio quintal foi mais que um choque, me revirou por inteiro.


Desde então, estudar estes sabores, entender os potenciais de resiliência climática, se tornaram hábitos sistemáticos na rotina de quem vive num sítio. Junto com o meu atual companheiro, Diego Prospe, viramos colecionadores de plantas e sabores. Observamos o crescimento e multiplicação de umas centenas de espécies. E no laboratório que sempre foi cozinha (ou vice-versa), faço minhas experiências.


A planta mais difícil de trabalhar foi o lúpulo. Um mistério amargo que me desafiou por mais de um ano. Hoje, a considero iguaria culinária, complexa. E qualquer prato bem elaborado com esta flor será sucesso!


Abaixo, imagens de espécies testadas por nós que poderiam auxiliar a esta demanda futura por alimentos resistentes e nutritivos:


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